quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Obrigada, Ian!


Oi, meu filho...
Ontem, depois de muito tempo você me viu chorar. Estávamos só nós dois em casa e eu não conseguia sair do chão.
Enquanto as lágrimas escorriam incessantemente pelo meu rosto, você veio e se sentou no meu colo, pegou a Bíblia e começou a folhear. Não fez bagunça, não me chamou, não falou nada. Só ficou ali, no meu colo, folheando a Bíblia.
Sabe, filho, às vezes as pessoas que a gente ama magoam a gente. Elas nos fazem sentir pequenas, diminuídas, humilhadas. Às vezes fazem isso sem querer, tentando nos dar uma lição, demonstrar algum amor. E no fim das contas a gente entende. Mas dói. Dói pra caramba. E a gente fica inerte, como se culpa de tudo o que não deu certo nessa vida fosse nossa, como se algumas escolhas pudessem ser feitas por nós. E, acredite, muitas vezes as situações em que vivemos são frutos das escolhas dos outros. Dos nossos pais, daqueles a quem chamamos de companheiros... E algumas dessas situações são recorrentes. A elas a gente fica imune, muito embora algum sintoma de tristeza pela impotência diante dela apareça de vez em quando.
Eu fui MUITO magoada ontem, meu filho. MUITO. Mas com o tempo aprendi que ser quem eu sou, estar na família em que eu estou, ter os amigos que tenho, trabalhar onde eu trabalho não são deméritos. Ninguém é perfeito. Por favor, aprenda isso. As pessoas podem te dar ou não o que você quer, seus objetivos podem ou não coincidir, elas podem estar ou não à sua altura, serem dignas da sua convivência, do seu amor, do seu afeto, da sua amizade. E se não forem dignas, simplesmente vá embora, filho. Não se relacione. Se o fardo deles for pesado demais, feio demais, fedorento demais para você agüentar, vá embora. Mas não julgue. Porque para muitos o seu fardo vai ser assim também.
Fardo é aquilo que a gente carrega ao longo da vida. São os nossos pais, nossas experiências, nossos traumas, nossos amores desfeitos, nossos defeitos. É o nosso pacote. Todo mundo tem um, Ian. Não se iluda quanto a isso. Mas você tem sempre a escolha de dividir ou não esse fardo. Aceitar ou não o fardo alheio. Como sua mãe, só me resta desejar profundamente e te instruir para que pegue o fardo mais ADEQUADO. O mais adequando não vai ser o mais leve, mas vai ser aquele que você vai carregar com AMOR. E quando eu falo de amor, filho, eu falo de um amor que é comparável a uma fala bíblica e outra que seu bisavô deve ter adaptado desta. A bíblia diz: que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita. E seu bisavô dizia: quando a gente dá alguma coisa pra alguém, a gente esquece.
Então, Ian, se você der alguma coisa pra alguém, não cobre. Não jogue na cara. Se perdoou, esqueça. Se ama, que seja de graça. Se quer alguém na sua vida, esteja na vida dela. Se quer que ela abrace os seus, abrace os dela. Mas faça isso COM AMOR, sabendo que “é necessário que se ature duas ou três larvas se quiseres conhecer as borboletas”.
Ontem você segurou meu fardo com amor, meu filho. Obrigada.
Na ternura e na ingenuidade dos seus dois anos você embalou meu sono com ternura, carinho e cuidados. Ontem, filho, quem cuidou de mim foi você. Quem aplacou minhas lágrimas com a roupinha foi você. Foi você quem me embalou nos braços e me fez dormir.
Te coloquei na cama, olhei nos seus olhos e dei boa noite. Você, antes de virar pro lado, falou “te amo mãe”. Respondi que também te amo, meu filho.
Você se virou de costas pra mim. Mas antes de adormecer, voltou e me pediu “vem cá, mãe”. Puxou minha cabeça de encontro à sua, encostamos os narizes como em beijo de esquimó. Você pegou meu braço e me fez te envolver todinho no meu abraço, ainda com a testa colada. Se mexeu, se ajeitou e colocou a mãozinha em volta do meu pescoço. Começou a fazer carinho. Depois se virou de costas de novo, mas não largou meu braço. Me fez te abraçar de conchinha e fez carinho até dormir.
Meu coração lacerado, pequeno, humilhado ficou grande de amor. Cheio, inchado. Porque eu coloquei o melhor menino do universo na Terra. Deus me deu um anjo pra cuidar. “Um anjo do céu que me escolheu.” E eu chorei baixinho, filho, mas dessa vez de alegria. De alegria de ter você e saber que nós dois juntos vamos sempre de mãos dadas e que não importa o que aconteça, nós sempre vamos ter para quem voltar: um pro outro.
Te amo, Ian! Obrigada.

Um comentário:

  1. Amiga, não sei o que te aconteceu...mas fiquei muito emocionada com tudo o que vc escreveu. É tudo tão certe e verdadeiro. Bjs

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